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  Apresentação  
     
 

O MELHOR LUGAR DO MUNDO É A SUA ALDEIA

 
     
     
 

O Criméia Leste é, talvez, a primeira periferia de Goiânia. Um canto na zona norte da cidade cercado de rios. Antiga fazenda Criméia, que por volta dos anos 50 tornou-se uma área de expansão da recém-nascida Goiânia, capital de Goiás, fundada em 1933. Talvez por ser um canto na zona norte, cercado de rios, o Criméia tenha resistido ali, durante muito tempo, enquanto Goiânia explodia demograficamente por todos os lados. E o Criméia, ali, sofrendo todos os males do crescimento desordenado e perverso das grandes cidades, mas, ao mesmo tempo, querendo ser mais comunitário que os outros bairros. O Criméia sempre foi meio assim mesmo: moradores que se conhecem há muito, o futebol de várzea que morreu nos anos 80, gente até hoje muito simples. Alguns já alçados à condição de classe média. Outros desempregados. Outros excluídos: como os moradores das áreas de posse urbana da rua Emílio Póvoa, marginal ao poluído córrego Botafogo. Como grande parte dos cidadãos da Vila Monticelli.

Desde 2001, logo após a realização do primeiro Fórum Social Mundial, a idéia de criarmos a associação Criméia Resistência Comunitária foi lançada e discutida com algumas pessoas da comunidade do setor Criméia Leste e bairros circunvizinhos em Goiânia, capital do estado de Goiás, Brasil, América Latina, Terra. A entidade que acabamos por fundar, em 2003, visa à geração de emprego e renda e à promoção do desenvolvimento local sustentável, estabelecendo como foco a realização de projetos e ações que priorizem o surgimento de postos de trabalho remunerados nas áreas de cultura, arte, esporte, lazer, entretenimento, comunicação e proteção do meio ambiente. E a partir de maio de 2006 a ONG Criméia Resistência Comunitária virou Ponto de Cultura através do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura.

Não há mais para onde ir. A humanidade necessita buscar com urgência alternativas de geração de emprego e renda que se coloquem no campo da convivência comunitária, da construção de expressão local e da consciência de localidade. O que se vê hoje em bairros como o Criméia Leste é uma total falta de convivência e expressão local. E também uma total restrição de mercado de trabalho no campo da manifestação humana. A vida social e cultural nos subúrbios morre massacrada pelo enorme poderio e pela atitude meramente mercantilista da indústria cultural e dos megassistemas de comunicação, sendo a grande maioria de seus ídolos (deuses) banais, vazios e distantes de suas localidades.

O mundo da expressão humana precisa ficar mais grandioso em espaços menores. Na lógica da indústria e do capital especulativo da produção cultural, o artista, o atleta, os comunicadores e outros profissionais da expressão humana , só atingem o “sucesso” quando se distanciam econômica, social e geograficamente das suas localidades de origem. Nosso projeto visa estabelecer o enfrentamento a essa lógica perversa, que mata os espaços de trabalho dos “não-famosos” nas suas localidades. E para enfrentá-la, vamos trabalhar a formação, a geração de oportunidades de trabalho, a consciência de localidade dos talentos do bairro (artistas, artesãos, atletas, comunicadores e outros) e, também, a consciência de consumo da comunidade local.

“Se queres expressão universal, consome da tua aldeia”. Vamos trabalhar com a comunidade a construção da convivência e a prioridade de consumo para o espetáculo e o produto local. E sabemos que a produção local hoje inexiste ou está banalizada. Mas nunca mais banalizada que o monte de lixo resultante da atitude predatória da indústria cultural ao longo dos tempos. Estamos apostando na hipótese de despertar a convivência e a manifestação humana, objetivando que a comunidade do Criméia Leste possa redescobrir a arte do teatro, da música, do futebol, da capoeira, do entretenimento, do jornalismo — isso implica ter, no seu dia-a-dia, a presença de atores culturais locais com suas performances ricas em originalidade, diversidade de conteúdo, forma e debate estético.

Há no Criméia Leste, como em qualquer bairro de grandes cidades, ou qualquer outra pequena localidade, uma memória viva a ser despertada para muito além do renascer. Essa memória se chama futebol de várzea, teatro de rua, roda de viola, roda de samba, roda de capoeira, festejos juninos, jogo de peteca, roda de pião, jogo de palitos, jornal do bairro e tantas mais. Estamos retomando a história e a memória do Setor Criméia Leste. Estamos trabalhando e nos organizando para que essa memória reviva e passe a se expressar novamente como Canto do Rio Futebol Clube, primeiro time de futebol de várzea do bairro, e muitas outras manifestações que poderemos reviver, recriar ou criar, a partir de agora que constituímos a nossa associação: Criméia Resistência Comunitária.

 
     
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